Mais feminismo? Sim. Mais uma vez.
«Mais feminismo?»
Sim. Mais uma vez.
Enquanto houver mulheres com medo de voltar sozinhas para casa. Enquanto houver crianças com medo de falar. Enquanto as vítimas tiverem de ser perfeitas para serem acreditadas. Enquanto o silêncio for mais confortável do que a verdade. Enquanto certos reflexos protegerem os agressores mais depressa do que protegem as vítimas.
Sim, precisamos de feminismo.
Não como moda. Não como pose. Não como palavra que se põe numa bio para parecer do lado certo. Como uma necessidade. Uma de verdade. Aquela que permite dizer: uma sociedade não pode dizer-se livre se uma parte dos seus membros aprende muito cedo a desconfiar, a calar-se, a minimizar, a aguentar.
O feminismo não é um ataque aos homens. É uma resposta à violência. À impunidade. Ao medo. A esse hábito terrível de perguntar às vítimas se têm a certeza, em vez de perguntar aos adultos por que não protegeram.
Desconstruir não é odiar. É olhar de frente para as nossas frases automáticas. “Ela está a exagerar.” “Porquê agora?” “Tens a certeza?” “Ele não faria isso.” “Nem todos os homens.” É perceber que certas frases, mesmo ditas sem má intenção, podem servir de muro. Um muro entre uma vítima e a escuta. Entre uma criança e a proteção. Entre uma mulher e a sua segurança.
Por isso, sim, é preciso acreditar nas vítimas. Não cegamente. Humanamente. Com seriedade. Com escuta. Com a consciência de que falar costuma custar muito mais do que calar.
É preciso educar os rapazes. Não lhes ensinar a ter vergonha de serem rapazes. Ensinar-lhes a não confundir desejo com direito. Força com dominação. Silêncio com consentimento. Ensinar-lhes que uma masculinidade digna não precisa de diminuir a dor dos outros para existir.
É preciso responsabilizar os adultos. Porque proteger as crianças, proteger as mulheres, proteger as pessoas vulneráveis não é uma opção moral que se ativa quando o tema se torna mediático. É uma responsabilidade diária.
É preciso mudar as leis. Mas também os olhares. Porque uma lei pode condenar, mas uma cultura ainda pode calar. Uma lei pode reconhecer uma violência, mas uma família, um grupo, uma instituição, o meio à volta ainda podem sufocá-la.
E é aí que a luta se torna coletiva.
Não basta dizer “sou contra a violência”. Em teoria, toda a gente é contra a violência. A verdadeira questão é: o que fazemos quando alguém fala? Escutamos? Protegemos? Duvidamos por reflexo? Tentamos compreender, ou preservar o nosso conforto?
Uma sociedade não se julga apenas pelos seus grandes discursos. Julga-se nesses momentos minúsculos em que alguém ousa dizer: “tenho medo”, “aconteceu-me”, “não acreditaram em mim”, “preciso de ajuda”.
Julga-se pela forma como responde.
Hoje queremos destacar @Floe, que levou esta voz para a rua. Porque algumas vozes importam. Porque lembram que esta luta não é abstrata. Toca os corpos, as famílias, o íntimo, a infância, a segurança, a liberdade.
E porque não há desejo livre sem segurança. Não há intimidade livre sem respeito. Não há palavra livre se as vítimas ainda tiverem de escolher entre falar e serem destruídas uma segunda vez.
Por isso, sim: mais feminismo.
Mais escuta.
Mais proteção.
Mais justa indignação.
Mais ternura para quem sobreviveu.
Mais responsabilidade para quem devia ter protegido.
A pergunta não é “porquê outra vez?”
A pergunta é: o que estamos à espera para que finalmente seja óbvio?
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