O Jardim das Ausências
Eu não te toquei. Ainda não. Só te segurei com frases que sabem para onde vão. Uma coleira de palavras. Calma. Discreta. Tenaz. — Boa noite. A tua primeira frase tinha a doçura de uma porta a fechar-se sem ruído. Fim de dia, o ecrã a aquecer um pouco os dedos. Não tínhamos prometido nada. E, no entanto, tudo já estava ali, contido no silêncio entre duas mensagens. — Leio há muito tempo. Não sei como dizer… preciso de ser segurada. Descreves-te sem pedir desculpa. Na casa dos quarenta. Formas fáceis de amar. Longos cabelos loiros a cair-te pelas costas. Uma voz que se adivinha nas tuas palavras, baixa, contida. Reconheço essa fome tranquila que não quer fazer sombra, mas que nunca vai embora. Respondo pouco. Corto o desnecessário. Dou-te espaço. — O que queres? — Clareza. Doçura. Firmeza. Não há acaso. Só uma evidência ali pousada, como uma mão aberta. Falo-te de limites antes de o desejo se descontrolar. Não uma lista. Uma moldura. Sóbria. — Quando for demais, dizes «âmbar». Se quiseres parar, dizes «vermelho». Não me deves mais do que aquilo que escolhes oferecer. Eu vigio. Tu obedeces. Eu respondo. Fazes uma pausa. Quase ouço a tua respiração mudar. — Está bem. Obrigada. Sorrio sem mostrar. A noite instala-se. O ecrã torna-se a única lâmpada. Fecho devagar a mão. — Não te vou tomar com o meu corpo. Ainda não. Vou tomar-te com as minhas palavras. Deixas cair uma hesitação, uma gota límpida. — Sim, Mestre. Torno tudo simples. Dois rituais para começar. Uma respiração para a manhã. Outra para a noite. — Às 7 h, postura de acolhimento. De joelhos, ou sentada se preferires. Cabeça inclinada. Costas longas. Três respirações lentas. Escolhes uma palavra para o teu dia. Às 22:30 envias-me três frases: «Obedeci a…» / «Resisti a…» / «Amanhã, eu…». Nem mais, nem menos. Aceitas. Ofereces a tua disciplina como quem deixa o portão do jardim entreaberto. As coisas começam sempre por uma pega. Esta agarra bem. No dia seguinte escreves cedo. — Escolhi a minha palavra: doçura. Não te felicito. Confirmo-te. — Recebido. Continua. Não apresso. Deixo amadurecer. A tensão nasce sozinha quando o corpo percebe que não vai ser precipitado. Então, a mente avança. Na terceira noite, dou-te a tua primeira missão. Sem efeitos especiais. Uma instrução limpa, lisa. — Escolhe uma cueca. Algodão, se possível. Branca, se tiveres. Vais usá-la todos os dias. Vais acariciar-te às vezes, sem nunca te levares até ao fim. Vais parar antes de cair. Vais respirar na falta. Vais deixá-la beber de ti. Depois vais embrulhá-la. Vais deixá-la num jardim que eu te indicarei. Não nos vamos ver. Silêncio. O tipo de silêncio em que nos ouvimos dizer sim. Os teus dedos devem tremer. Não te ajudo. Não acrescento nada. A coleira aperta-se sozinha. — Sim, Mestre. Mando-te um mapa. Um pequeno jardim discreto, atravessado por um banco de pedra. Lugar autorizado, calmo, quase esquecido. Ao meio-dia, a luz desce ali de lado e adormece sobre as folhas. Ouve-se uma fonte que sabe calar-se. Começam os dias de denial. Escrevo pouco. Tu escreves melhor. — Dia 1. Contas-me o calor fino do tecido contra ti. A borda elástica a marcar a pele. A sensação quando cruzas as coxas no elevador. Dizes que o corpo chama, e tu respondes com a palma, só dois minutos, depois retiraste a mão como se tirasse uma mecha do fogo. Explicas sem rudeza. Pões palavras claras. Respondo à medida. — Dois minutos, depois trinta segundos imóveis. Repete uma vez. Depois, mãos espalmadas sobre o ventre. Inspira. Deixa passar. Obedeces-me. À noite escreves-me três frases. Nada a mais. É o suficiente. — Obedeci à instrução. Resisti à segunda vaga. Amanhã, vou calar-me ainda mais. Sinto que a cueca te ensina. O algodão toma o que deve. Sal, tepidez, odores. Uma assinatura. Ficas aí. — Dia 2. Confessas uma microdesobediência. Prolongaste dez segundos sem me dizer. Um picar de vergonha, rápido. Reponho-te sem alarido. — Deves-me a verdade, não a perfeição. Amanhã voltas ao protocolo. Vais escrevê-lo primeiro. Podes respirar. À noite envias-me um áudio. A tua voz baixa. Um pouco áspera. O roçar de um lençol. «Estou a usar. Aquece. Cola-se. Pensei em ti num supermercado, no corredor da fruta. Cerrei os dentes. Parei. Apeteceu-me chorar, depois rir. Continuo.» Pauso o ficheiro. Ouço o silêncio depois. Tem a forma da tua submissão. Aguenta. — Recebido. Estás a fazer bem. — Obrigada por me sustentares. Dia 3. O texto encurta. Poupas palavras para poupar força. Bom sinal. Listas o que os sentidos percebem. «Algodão: húmido. Pele: quente. Cheiro: mais forte. Mente: clara às vezes, impaciente muitas vezes.» Aperto a coleira um ponto. — Hoje, vais acariciar-te apenas uma vez. À noite, cortinas corridas. Dois minutos. Paragem seca. Diz muito baixinho «calma» ao expirar. Três vezes. Vais deitar-te sem procurar o sono. Ele virá. Fazes. Confirmas. Felicito-te sem espetáculo. A luz baixa faz o trabalho por nós. Dia 4. O tecido torna-se linguagem. Aprendes a ler-te nele. Assinalas o rasto que deixa na pele quando te sentas depressa demais. Notas a pequena mordida do elástico depois das escadas. Ao meio-dia, dizes que o ar cheira a casca húmida. Dizes que te acalma. Repetes «calma» sem eu pedir. Ofereces-me de ti sem te dares conta. Aceito. — Hoje à noite, nada. Nenhuma mão. Só vais respirar. Vais deixar o calor subir e descer sozinho. Vais anotar o que isso faz ao teu pescoço, ao teu peito, ao teu ventre. Vais escrever-me esses três lugares, e mais nada. Gosto quando te retrais em vez de fugires de ti. É aí que aperto forte e não te partes. Dia 5. Escreves cedo. Uma linha. «O pescoço: morno, pesado. O peito: vazio, vivo. O ventre: dócil.» Leio outra vez. Ouço o lugar que me fazes. — Hoje vais preparar o envelope. Papel castanho. Fio. Um pequeno cartão branco. As tuas iniciais no verso, a lápis cinzento. Sem perfume. Sem artifício. Gravas outro áudio. Ouço o roçar do papel. O pequeno clique regular do fio a escorregar sob as unhas. O fecho de uma caixa. Mate. Sopras-lhe como a uma vela. «Está pronto. É simples. É teu.» Ao meio-dia envio-te a hora e o ponto. Em pleno dia. Sem esconderijos ridículos. O banco de pedra. Do lado da sombra. Uma pedra plana, junto ao pé do banco, vai esperar por ti, como um piscar de olho. Levantas, enfi as a caixa na cavidade, recolocas a pedra. Vais-te embora. É tudo. — Não me vais esperar. Não te vais voltar. Vais seguir o teu caminho como se nada tivesse acontecido. — Sim, Mestre. Na véspera falo-te de aftercare. Não uma grande palavra. Uma coisa real. — Depois do depósito, vais beber um copo de água, devagar. Vais enviar-me três frases: «Está feito.» / «Sinto-me…» / «Estou a respirar.» Eu respondo. Estarei aqui. Âmbar e vermelho continuam válidos a cada instante. Entendes? — Entendo. Não quero âmbar. Não quero vermelho. Quero sim. No dia, a luz tem aquela clareza que suaviza os ângulos. Estou cedo, à distância. O jardim respira. As folhas fazem a sua música minúscula. Parece que o bairro inteiro segura o ar para si próprio. Uma hora antes da hora, deslizo debaixo da pedra, na cavidade, uma fita branca enrolada e um pequeno cartão: «Leva-me.» Nada mais. Entraste. Os teus passos são simples. Sem teatro. Jeans, t-shirt clara. O teu cabelo loiro preso com um elástico. Não tens nada além do essencial. Sinto a tua decisão até na palma da minha mão. Dás a volta ao banco como se procurasses sombra. Encontras a pedra. Levantas-na só um pouco. Cavidade. Deslizas a caixa, e os teus dedos encontram uma fita branca enrolada, um pequeno cartão. Pegas neles sem demora, a palma a fechar-se. Fricção. A pedra volta ao lugar com um som abafado, cheio, como uma nota sustentada. Nada transborda. Ficas meio segundo a mais. Recuas. Vais embora. Não te voltas. Não me mexo. Deixo-te chegar à porta lateral. Desapareces. O jardim volta a ser jardim. Só então avanço. Ajoelho a mão sobre a pedra. Levanto-a. A caixa está lá. Já tomou a temperatura do lugar. Pegá-la-ei como se pega numa oferenda. Arrumo-a sem a abrir. Não aqui. Não diante das folhas. Saio pela outra saída. Mantemos o jardim inteiro entre nós como testemunha. Dois minutos depois, chega a tua mensagem: «Está feito. Sinto-me leve e profundamente segurada. Estou a respirar.» Envio-te um áudio. A minha voz mantém-se baixa. «Recebido. Muito bem recebido. Fizeste exatamente o que te pedi. Agora vais para casa. Um duche morno. A fita no pulso esquerdo. Três respirações longas. Vais deitar-te dez minutos, mãos sobre o ventre. Vais deixar descer. Esta noite, às 22:30, escreves-me as tuas três frases. E amanhã falamos do teu silêncio junto ao banco.» Mantenho a caixa fechada até à noite. Não é prudência. É respeito. Gosto do peso discreto que ela ganhou no meu bolso. Ponho-a na mesa, em casa, quando a luz se suaviza. Desfaço o fio. O som é quase uma carícia. O papel castanho guarda o cheiro do dia. A cueca está ali, simples, branca, tornada outra coisa. Calor guardado, sal, eflúvios. Tomo-a na palma, com delicadeza. Levo-a ao rosto. Fecho os olhos. O cheiro atravessa-me. É denso. É quente. Sobe a direito. Como uma mordida lenta. Tem o teu nome. Tem a tua respiração. Tem os teus silêncios. Respiro mais fundo. Contenho-me. Depois volto a abrir os olhos. Estou aqui. Contigo. Contra nada. E isso é imenso. Fecho de novo. A lentidão é uma oração quando se sabe a quem se fala. Devolvo-te só isto: — Usa a fita amanhã. T-shirt clara. Pausas de respiração às 10 h, 14 h, 18 h. Palavra do dia: enraizamento. Respondes depressa. — Sim, Mestre. Apago o ecrã. O silêncio segura a divisão. Na memória dos dedos, ouço a maciez mate do papel, o pequeno sibilo do fio. Ouço também o teu segundo a mais junto ao banco, aquele em que tudo se inclinou sem se mover. Não nos cruzámos. Conhecemo-nos. É mais carnal do que qualquer mão. Amanhã, vou apertar um ponto. Nada mais. Nada de mais. Vais usar a fita como se usa um segredo que respira. E eu continuarei a tomar-te com as minhas palavras, até que os teus silêncios digam sim antes mesmo de escreve res. A coleira não se vê. Aguenta. Nós também.

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